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Sociedade

Invasão de privacidade


Por que as pessoas se permitem fazer isso?

por Ivan Martins

Descobri outro dia que tenho certa predileção pela palavra privacidade. Gosto do som e gosto do sentido. Outro dia fui ao Houaiss procurar pela origem do termo e me surpreendi: o dicionário informa que vem do inglês privacy e que foi aportuguesada em algum momento dos anos 1970. Zeloso com a língua, Houaiss recomenda que em vez de privacidade se use a palavra intimidade, que é do português e quer dizer a mesma coisa.

Com todo respeito, eu discordo. Para mim, as duas palavras têm significados diferentes. Intimidade diz respeito à minha relação com os outros, privacidade diz respeito apenas a mim. Eu digo “nossa intimidade” e digo “minha privacidade”. Intimidade é algo que eu partilho, privacidade é alguma coisa que eu protejo. Deu pra entender?

Essa introdução pretensiosa tem um objetivo: perguntar por que as pessoas se acham no direito de invadir a privacidade dos outros em nome da intimidade que elas compartilham.

Todo mundo conhece uma história desse tipo, eu conheço várias.

Houve a mulher que resolveu aproveitar a tela aberta do email do marido para matar a curiosidade sobre a intimidade dele. Leu as mensagens trocadas com uma ex-namorada e ficou em pânico, achando que o sujeito estava de partida. Tudo errado.

Houve o sujeito, prestes a casar, que descobriu entre as coisas da noiva cartas antigas de outro homem. Armou-se o barraco, quase se suspende o casamento, mas ao final os dois se arranjaram e têm vivido felizes desde então. Foi uma dor inútil.

A minha lista de exemplos é grande e eu garanto que a sua – leitora ou leitor – é igual ou maior.

Já ouviu falar de alguém que entrou no celular do namorado para espiar na lista de chamadas? Eu já. Ouviu falar de gente que ficou interrogando o parceiro até arrancar dele o que não queria ouvir? Eu sim.

Suponho que as pessoas que fazem essas coisas encontrem justificativa no ciúme ou na “necessidade de saber”, mas isso em absoluto não me convence. Todo mundo tem ciúme e todo mundo tem dúvidas, mas, acima desses sentimentos, há – ou deveria haver – uma escala de valores ditando o que pode e o que não pode ser feito.

Acho que as pessoas invadem por que se sentem de alguma forma donas dos outros. Cem anos atrás, cinquenta anos atrás, os costumes talvez autorizassem essa sensação. Hoje ela não faz sentido. Cada um de nós é dono do próprio nariz e tem direito (na verdade, tem necessidade) de preservar espaços próprios de existência. As pessoas que nada têm a esconder não devem ter nada que interesse.

O que se pode exigir dos parceiros é que não nos machuquem ou nos exponham levianamente. Que nos respeitem, enfim. Como diz uma amiga minha, muito prática: eu quero ser preservada, no sentido preservativo da palavra.

Quem vasculha a vida dos parceiros pode achar que procura respeito, mas está atrás de confusão. E loucura. Começa violando a própria ética e termina violando os direitos dos outros. Nada de bom resulta disso.

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